domingo, 21 de agosto de 2016

VIDA ETERNA NA CARNE


Nascer, reproduzir, morrer: Eis o ciclo da vida. Mas isso é só por enquanto. A ciência está trabalhando para que ninguém mais morra de velho. E é possível que dê tempo de você entrar nessa.

Morte morrida é coisa que a Turritopsis dohrnii não conhece. A vida dessa espécie de água-viva só acaba se ela for ferida gravemente. Do contrário, a Turritopsis vai vivendo, sem prazo de validade. Suas células se mantêm em um ciclo de renovação indefinidamente, como se voltassem à infância. Podem aprender qualquer função de que o corpo precise. É uma verdadeira (e útil) mágica evolutiva. Parecida com a do Sebates aleutianus, um peixe do Pacífico conhecido como rockfish, e de duas espécies de tartaruga, a Emydoidea blandingii e a Chrysemys picta (ambas da América do Norte). Esse segundo grupo tem o que a ciência chama de "envelhecimento desprezível". Suas células ficam sempre jovens, por motivos que a ciência ainda quer descobrir. 

A imortalidade existe na natureza. Não tem nada de utopia. Pena que nós não desfrutemos dessa boquinha. Ao longo do tempo, nosso corpo se deteriora. Perdemos os melanócitos que dão cor aos cabelos, o colágeno da pele, a cartilagem dos ossos - ficamos grisalhos, enrugados, com dores nas juntas. Velhos. Numa sucessão de baixas, células e órgãos vão deixando de cumprir funções cruciais para o corpo. Até que tudo isso culmina numa pane geral. E nós morremos. Para impedir que o corpo definhe desse jeito, o homem já tentou de tudo: De mumificação, no Egito antigo, a injeções feitas a partir de testículos de animais, na França do século 19. Só que agora estamos mais próximos do que nunca do sonho da imortalidade. Por causa dessas espécies highlanders, cientistas do mundo todo acreditam que nós também podemos ser imortais. E já têm propostas para isso, divididas em duas linhas: Remédios - feitos para aprimorar nossa defesa contra a morte, e inovações tecnológicas que nos tornarão quase robôs. Sabe aquela expressão "de certo na vida, só a morte"? Parece que ela vai perder o sentido em breve. Em 50 anos não vai mais existir definição para expectativa de vida. Teremos um controle tão completo do envelhecimento que as pessoas viverão indefinidamente", diz Aubrey de Grey, geneticista da Universidade de Cambridge. 

Não é uma tarefa fácil. Essa pesquisa está diretamente relacionada ao estudo do envelhecimento, que a ciência ainda não conseguiu destrinchar completamente. Pelo que se sabe, o corpo funciona como um carro. Depois de muito rodados, ambos acumulam defeitos. A diferença é que, quando quebra, nosso corpo dá um jeito de se consertar. Se você sofre um corte, o sangue estanca em minutos, não é? O problema é que essa manutenção segue bem enquanto somos jovens, mas vai perdendo a eficácia. Com o tempo, células param de se reproduzir, o corpo vai sofrendo ataques do ambiente... e a nossa máquina não dá conta de reparar tudo. Ficamos velhos, fracos, vulneráveis. Para que possamos viver para sempre, esse sistema de reparos não pode parar. E já apareceu proposta de todo tipo pra isso. Se antes essas ideias eram tidas como fringe science - algo como "ciência marginal", que tem mais de especulação do que de fato, agora elas começam a ser vistas com seriedade. Tanto que acabaram de levar um Nobel.

Uma pista: O câncer
Aconteceu recentemente, em outubro de 2009. Três pesquisadores americanos ganharam o Prêmio Nobel de Medicina e US$ 466 mil, cada um, por terem começado a decifrar por que nossas células envelhecem. A chave está numa palavra: Telômeros. O processo de envelhecimento é complexo e depende de vários fatores. Os telômeros são um deles, declarou a Fundação Nobel, ao anunciar o prêmio. Telômeros são os fragmentos da ponta dos nossos cromossomos, como tampinhas que os protegem. Quando uma célula se divide, essa tampinha tende a ficar menor, e a célula, a se deteriorar. O processo, repetido a cada divisão celular, faz com que ela envelheça. Ou melhor: Que você envelheça. Mas em células cancerosas isso não acontece: Elas se dividem sem sofrer danos. Por quê? Graças a uma enzima que estimula a construção do telômero, a telomerase. Segundo os vencedores do Nobel, a telomerase trabalha mais nas células cancerosas do que em outras, e as protege. Basicamente, é essa enzima que torna o câncer tão poderoso. 

Apesar de premiada só agora pelo Nobel, a descoberta é dos anos 80. E fez os cientistas pensar que a telomerase poderia prolongar nossa vida deixando células saudáveis tão resistentes quanto as cancerígenas. A pesquisadora Maria Blasco, do Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas da Espanha, testou a hipótese com ratinhos. No seu estudo, ratos com mais telomerase nas células viveram até 50% mais do que os outros. Mas apresentaram mais tumores, acabavam morrendo de câncer. Em 2008, a equipe de Blasco conseguiu controlar a difusão das células cancerígenas, o que abriu espaço para a possibilidade de estudos com humanos. "Se pensarmos num aumento semelhante de expectativa de vida para pessoas, isso significaria morrer entre os 115 e os 120 anos", diz a pesquisadora. 

Ótimo. Mas calma lá: por que só até 120 anos, e não por toda a eternidade? É que, como o pessoal do Nobel disse, o envelhecimento é complexo. A telomerase ajudaria a aniquilar uma causa desse processo. Mas precisaríamos de armas diferentes para combater outras ameaças. Lembra de como o corpo é parecido com um carro? Para que seu possante fique sempre em ordem, você o abastece regularmente com combustível, troca as peças, conserta as batidas... Não que ele vá ficar com cheirinho de novo, mas continuará rodando pra sempre se fizermos manutenção. No corpo, vale a mesma regra: Cada iniciativa já proposta pela ciência para prolongar a vida só garante alguns quilômetros a mais se usada sozinha. Para chegar à imortalidade de fato, precisaremos é de um serviço completo, que ofereça todo tipo de reparo de que nosso corpo necessita.

Células-Tronco
Então a telomerase ajudará as células a não se deteriorar. Mas e se elas já tiverem sido maltratadas? Aí partimos para outras ideias. Começando pelo básico: Renovar o combustível. O geneticista britânico Aubrey de Grey, da Universidade de Cambridge, propõe que façamos isso com células-tronco. Injetadas periodicamente em nosso corpo, elas poderiam assumir o papel das células mortas e daquelas danificadas pelo processo natural de divisão celular. Como as células-tronco têm a capacidade de formar novos tecidos e órgãos, elas funcionariam como um remedinho, tomado de tempos em tempos no consultório do médico, para evitar e aniquilar doenças. "Faríamos um transplante periódico, e as células-tronco seriam iguais às originais de nosso corpo, só que novas em folha", afirma De Grey. Resultado: Teríamos órgãos jovens para sempre. 

Não é algo tão distante da realidade. Células-tronco já são usadas na pesquisa de tratamento para doenças como diabetes e esclerose múltipla. O próprio Brasil tem bons resultados. No Centro de Terapia Celular, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, o pâncreas dos voluntários ao tratamento para diabetes voltou a fabricar insulina. E os pacientes deixaram de depender de injeções diárias. Mas teríamos também de consertar os arranhões que levamos durante a vida. Como os causados pela comida. Não só fritura e carne vermelha, mas comida em geral. É que passar fome - acredite - faz todos nós viver mais. Está provado desde os anos 30, quando a Universidade Cornell demonstrou que ratos submetidos a uma dieta 30% menor chegam a viver 40% mais. É um processo conhecido como restrição calórica, explicado por uma questão evolutiva. Sempre que o homem passou por momentos de escassez de alimentos na história, os mais adaptados às condições difíceis sobreviveram. A principal teoria é de que, quando passamos fome, nossas células entram num estado de alerta para otimizar os recursos que têm, como proteínas. "É como se o corpo tentasse se proteger do risco", diz Randy Strong, farmacólogo da Universidade do Texas. Mas, não, ninguém vai ter de viver a pão e água por 300 anos. O que a ciência quer fazer é simular essa esperteza que o corpo adquire quando a fome aperta. 

Dentro de 5 anos, já vai dar pra comprar "fome em pílulas" nas farmácias. É o que promete o laboratório Sirtris Pharmaceutical, se tudo correr bem com os testes de um novo remédio que a empresa vem desenvolvendo, baseado no resveratrol. O resveratrol é uma substância encontrada em alguns tipos de uvas (como a pinot noir) que imita a situação de restrição calórica no nosso corpo, de acordo com estudos do médico australiano David Sinclair, pesquisador da Harvard Medical School e cofundador da Sirtris. Na uva, a substância existe em concentrações muito baixas. O trabalho dos pesquisadores é colocar a maior quantidade possível em pequenas pílulas, que serão vendidas com uma grife da indústria farmacêutica: O nome da britânica GlaxoSmithKline, que pagou US$ 720 milhões em 2008 para comprar o Sirtris e virar dona da pesquisa. 

As pílulas são a primeira droga contra o envelhecimento testada em humanos. Idosos diabéticos estão recebendo o medicamento, e a expectativa é de que a doença seja curada. Se tudo der certo, as pílulas poderão nos dar cerca de 10 anos extras de vida. O mesmo bônus de vida que cientistas prometem com a rapamicina. Usada contra alguns tipos de câncer e para suprimir o sistema imunológico de quem passa por um transplante, a droga agora é vista como um novo simulador de "fome". Em ratos, conseguiu prolongar a vida em 30%. Promete ser um concorrente do resveratrol no futuro mercado de restrição calórica. Mas comida é só um dos fatores que geram danos ao nosso corpo: Até respirar faz mal. É que o oxigênio é um dos mais potentes radicais livres, como são chamadas as moléculas que circulam pelo nosso corpo com elétrons instáveis, prontos para roubar elétrons de outras moléculas. Quando os radicais livres conseguem fazer o roubo, as células atacadas ficam danificadas. Envelhecem. É como se tivessem sido tomadas por ferrugem. Até temos um antídoto contra isso: Nós produzimos antioxidantes que nos defendem. O problema é que, com o tempo, essa produção cai e ficamos vulneráveis. Até porque sofremos um bombardeio de radicais livres, como o que vem dos alimentos e do ar. 

Se conseguirmos fortalecer as ligações químicas e evitar a ação dos radicais livres, dá para evitar que as células envelheçam. É a tese do cientista russo Mikhail Shchepinov, fundador da Retrotope, companhia que pesquisa o assunto. O que ele sugere é que nos alimentemos com comida ou bebida "enriquecida", ou seja, com moléculas resistentes aos radicais livres que já estiverem no nosso corpo. Água, por exemplo, é um alvo fácil para os radicais, eles quebram a ligação entre os átomos de hidrogênio e o de oxigênio. A molécula de água absorvida pelas células acaba danificada. Por isso, Shchepinov toma, todos os dias, um golinho de uma água diferente, a fórmula dela não é H20, e sim D20. Ao contrário do hidrogênio (H), o deutério (D) tem uma ligação forte com o oxigênio, e mais resistente aos roubos. Segundo o pesquisador, cada gole combate o envelhecimento. Falta saber o quanto podemos tomar sem provocar efeitos tóxicos no corpo. São só os primeiros passos rumo à imortalidade. Pra vencer a morte, muitos cientistas acreditam que nos transformaremos em máquinas mesmo. Do tipo que troca porcas e parafusos sempre que dá pau.

Você, versão tech
De uma forma, já vivemos essa realidade. Basta pensar no marca-passo. Mas o que se espera para o futuro é mais sofisticado: produção em massa de órgãos. A Escola de Medicina da Universidade de Wake Forest, nos EUA, está criando bexigas artificiais. Quer dizer, naturais, mas cultivadas fora do corpo. São feitas a partir de células da bexiga que será substituída. E ficam prontas em dois meses. O autor dessa pesquisa é o médico peruano Anthony Atala. Em 2004, quando era pesquisador de Harvard (hoje é professor e diretor do Instituto de Medicina Regenerativa da Universidade de Wake Forest), Atala começou a "cultivar tecidos". Em um prato, fez as células se dividir até conseguir um tecido de proporções gigantescas. Aí criou um molde de uma bexiga. Nele, colocou células da própria bexiga na parte interior e células musculares na exterior, fazendo com que elas crescessem. Deu certo. Dois anos depois foi feito o primeiro transplante, em uma criança. A equipe dele passou a fazer tentativas com outros tecidos e já obteve sucesso com cartilagem e veias.

Para consertos menores, outra solução: Um exército de robôs-médicos dentro de nosso corpo para arrumar qualquer defeito. Já existem experimentos na Rice University, nos EUA. Pesquisadores criaram estruturas microscópicas, pequenas cápsulas, capazes de levar remédio pela corrente sanguínea até células cancerígenas. E sem afetar as sadias. Esses nanorrobôs podem ter o tamanho de células humanas, ou ser ainda menores. Eles se espalhariam pela corrente sanguínea, limpando nossas artérias muito antes de elas chegarem perto de entupir. Vão também ser capazes de destruir vírus, bactérias, células cancerígenas antes que nosso corpo sofra qualquer dano. Funcionariam como novas pecinhas, responsáveis pela faxina no organismo. Em duas décadas, os nanorrobôs vão fazer as mesmas funções que as nossas células ou tecidos, mas com uma precisão infinitamente maior, escreveu o futurologista americano Ray Kurzweil, no livro Transcend, lançado em 2009. (Kurzweil não é qualquer um: Previu, nos anos 80, o que seria a internet hoje.)

Nosso Cérebro
Se isso parece futurista demais, veja o que está sendo preparado para o cérebro. O neurocientista Anders Sandberg, da Universidade de Oxford, quer fazer um download dos nossos pensamentos. O cérebro seria transformado em um software, com todas as habilidades da versão original. O programa faria a função de alguma área danificada ou poderia ampliar nossa capacidade de aprendizado e memória. Para isso, será preciso conhecer exatamente o funcionamento de nossa cabeça. E Sandberg pretende fatiar um cérebro em micropedaços para descobrir a função de cada um. Com esse arsenal já em produção, estamos no caminho para a imortalidade do corpo e da mente. Será o fim de uma das maiores buscas do homem. E a primeira era de um novo mundo, no qual a morte deixará de cumprir seu papel. Aí, vencer a morte terá sido só a primeira etapa. A imortalidade trará mudanças profundas na forma pela qual nos relacionamos com a família, com o trabalho e até com nós mesmos. Hoje a longevidade da população já é um dos maiores problemas do planeta em termos de espaço, empregos e previdência, a população de centenários deve chegar a 2,2 milhões em 2050 (eram 145 mil em 1999). E isso se a imortalidade não chegar antes. Portanto, prepare-se para uma vida completamente diferente. Mas não se preocupe por enquanto, você terá séculos para se acostumar com ela. 

Fonte: SuperInteressante | David Sinclair, Ray Kurzweil, Retrotope.

Resumo 
A imortalidade poderá ser realidade para nós? O Google espera que sim. A mais recente empresa do conglomerado, a Calico, vai concentrar seus esforços em derrotar a morte baseada em recentes descobertas científicas quanto à imortalidade.

domingo, 14 de agosto de 2016

QUEM É O DIABO?


Se alguém te pedisse para imaginar o diabo, provavelmente viria à mente um demônio com um tridente nas mãos. No entanto, por centenas de anos, o diabo cristão não foi retratado pela arte religiosa e, quando finalmente surgiu, era azul e não tinha chifres ou cascos. A imagem mais familiar para nós surgiu pelas mãos de gerações de artistas e escritores que pegaram o pouco que é dito pela Bíblia sobre Satanás e o reinventaram ao longo do tempo. A Bíblia diz que Satanás era o maior adversário de Deus. Na Bíblia judaica, o diabo é apenas outro agente subordinado a Deus, um anjo do mal, uma alegoria que simbolizava a inclinação maligna dos homens e mulheres. Esse personagem foi desenvolvido pelos cristãos até transformá-lo em uma representação da maldade suprema. Ou seja, o que era uma alegoria virou uma pessoa.

A doutrina cristã diz que Satanás assumiu a forma de uma serpente e tentou Eva no Jardim do Éden, mas não há nenhuma menção ao diabo no livro Gênesis. Foi só mais tarde que os cristãos interpretaram a serpente como uma encarnação de Satanás. Pois é, interpretação! Também acredita-se que Satanás foi expulso do céu após desafiar a autoridade de Deus. Porém, na Bíblia, um personagem misterioso é expulso após rebelar-se. A caracterização de Satanás como um anjo caído deriva dessa tradição. A imagem de um Satanás que governa o inferno e inflige tortura e castigo aos pecadores também não encontra correspondência no "texto sagrado". Apocalipse profetiza que Satanás será enviado ao inferno, mas sem qualquer status especial e sofrendo as mesmas torturas que os demais pecadores.

As faces do diabo
Nos primeiros séculos do Cristianismo, não havia muita necessidade de representar o mal na arte religiosa. Os cristãos acreditavam que os deuses pagãos rivais, eram demônios responsáveis por guerras, doenças e desastres naturais. Cem anos depois, quando o diabo apareceu na arte ocidental, algumas representações incorporaram os atributos físicos destes deuses, como o pelo facial e as patas de cabra.

O diabo medieval- Anos 1260
Na idade média, surgiu o retrato de Satanás mais reconhecível. Foi uma época de muito sofrimento, que ficou ainda pior com o surto de peste negra, a epidemia mais devastadora da história humana, com milhões de mortos na Europa. Como a Igreja não podia proteger os fiéis da doença, as representações de Satanás centraram-se nos horrores do inferno, refletindo o ânimo do momento e lembrando por que não se devia pecar.

Propaganda endiabrada - Anos 1530
Há uma longa tradição de associar o diabo aos inimigos do Cristianismo dentro e fora da Igreja. Quando ela se dividiu durante a Reforma, católicos e protestantes se acusaram mutuamente de estarem sob a influência do diabo com propagandas jocosas e grotescas sobre esta corrupção.

Feitiços e sedução - Anos 1500-1600
No início do período moderno, pessoas eram acusadas de fazer pactos com o diabo e praticar bruxaria. Satanás era frequentemente representado como um sedutor e se achava que as mulheres eram especialmente vulneráveis a seus encantos. Imagens mostravam mulheres em atos sexuais com o diabo, por elas serem consideradas o sexo frágil e mais propensas a caírem em pecado por serem incapazes de dominar seus desejos carnais. Se Satanás conseguia corromper o corpo feminino, era uma ameaça à segurança familiar, à santidade e até mesmo à fertilidade da comunidade.

Um diabo iluminado - Anos 1600-1800
Os escritores e pensadores iluministas reinterpretaram a história do diabo para que se ajustasse às preocupações políticas da época. John Milton descreveu um Lúcifer psicologicamente complexo no poema Paraíso Perdido, que conta a queda em desgraça de Satanás. Enquanto os textos religiosos anteriores haviam examinado a motivação de Satanás para condená-lo, o Lúcifer de Milton é um personagem atraente e solidário que encarna os sentimentos de rebeldia do republicanismo do século 17. Para alguns artistas românticos e iluministas, Satanás era um nobre rebelde que travava uma batalha contra a autoridade tirânica de Deus.

Animal político - Anos 1900-2000 
Quando a ciência conseguiu explicar a morte, as doenças e os desastres naturais, a figura do diabo ficou ameaçada. Havia lugar no mundo laico para Satanás? Foi quando um diabo urbano e sofisticado entrou em cena. Seguindo uma tradição de identificá-lo com inimigos políticos e religiosos, o diabo foi usado para ilustrar a oposição política por meio de caricaturas e sátiras. Além disso, Satanás encontrou seu lugar no mundo comercial, tornando-se sinônimo de excessos pecaminosos, aparecendo em propagandas para vender desde chocolate e champanhe, até carros de luxo.

Resumo
Diabo é puro delírio da mente humana. É tão real quanto a fada do dente, papai noel, coelho da pascoa e bicho papão. Sabe mais o que é fácil? Fazer algo de errado e botar a culpa no pobre diabo.

Fonte: BBC Brasil

segunda-feira, 30 de maio de 2016

EVANGÉLICOS - GENTE CHATA


No começo, o crescimento se deu em silêncio, praticamente ignorada pelas classes médias. Os templos evangélicos surgiam nas cidadezinhas perdidas e nas periferias miseráveis das metrópoles. Já não é mais assim. As catedrais milionárias estão se multiplicando como uma praga no Brasil. Há meio século os evangélicos são a religião que mais cresce no país. Nos últimos 20 anos, mais que triplicou o número de fiéis: De 7,8 milhões de pessoas em 1980 para 26,4 milhões em 2001, um pulo de 6,6% para 15,6% da população brasileira. Em algumas cidades, nem tanto, mas em outras, não parece longe o dia em que eles representarão mais de 50% dos habitantes. Com mais de 400 anos de atraso, finalmente estamos sentindo os efeitos da Reforma protestante que varreu a Europa no século 16.

Um terreno do Céu
Evangélicos, é a mesma coisa que protestantes. As duas palavras são sinônimas. Evangélicos são praticamente todas as correntes nascidas do racha entre o teólogo alemão Martinho Lutero e a Igreja Católica, em 1517. O alemão estava especialmente chateado com o comportamento dos padres, que, segundo ele, tinham virado corretores imobiliários do céu, comercializando indulgências – vagas no Paraíso para quem pagasse. Lutero abriu a primeira fenda no até então indevassável poder papal sobre as almas do Ocidente. A ele se seguiram outros.  

Os protestantes recusavam a ideia de que um único líder – o papa – deveria guiar os rumos da religião. Foi isso que começou a fragmentação do movimento em diversas correntes, com pequenas diferenças doutrinárias. Surgem os batistas, os metodistas, os presbiterianos... Mas o Brasil colonial passou quase imune à avalanche protestante. Houve apenas algumas exceções, como os calvinistas franceses e holandeses que invadiram o país – o primeiro culto evangélico por estas terras foi celebrado por franceses no Rio de Janeiro, em 1557, só 57 anos depois da missa católica inaugural. Era proibido realizar cultos de qualquer religião que não o catolicismo no território português.

A liberdade religiosa no Brasil só veio com a independência, na Constituição de 1824, ainda que impondo restrições de que as reuniões acontecessem em locais que não tivessem “aparência exterior de templo”. No mesmo ano, alemães fundaram a primeira comunidade luterana do Brasil. Logo depois chegaram as correntes missionárias, como os metodistas, dispostas a pregar nas ruas para salvar almas. No início do século 20, a fundação de duas igrejas seria decisiva para definir o perfil evangélico nacional: A Congregação Cristã no Brasil, inaugurada em São Paulo pelo italiano Luigi Francescon, em 1910, e a Assembléia de Deus, aberta um ano depois em Belém pelos suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg. Apesar da origem européia, eles chegaram ao país via Estados Unidos, onde se envolveram com uma nova corrente protestante, o pentecostalismo, um grupo que crescia em popularidade por lá desde a virada do século. Começou aí o que o sociólogo Paul Freston chama de “a primeira onda do pentecostalismo brasileiro”.


A Deus é amor fundada por Davi Miranda, é uma das mais rigorosas em termos de regras entre as pentecostais. Ela proíbe frequentar praias, praticar esportes ou participar de festas. Às mulheres, é vetado cortar o cabelo e depilar. Crianças com mais de 7 anos não podem jogar bola, graças a um versículo bíblico que diz “desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança”. Tantas regras têm compensação: Para os pentecostais, o melhor da vida está reservado aos fiéis para depois da morte. Até a década de 50, esse modelo reinou sozinho no pentecostalismo nacional. Fez sucesso, mas ficou restrito a grupos relativamente pequenos. A chegada da “segunda onda”, no entanto, traria uma novidade. É o que se convencionou chamar de “neopentecostalismo”. Em 1951 desembarcou aqui a Igreja do Evangelho Quadrangular, inaugurando no país o pentecostalismo de costumes liberais. “Todas essas igrejas que fazem sucesso hoje são nossas filhas, netas ou bisnetas”, diz o pastor Neslon Agnoletto, do conselho nacional da Quadrangular. De fato, inovações como os hinos com ritmos populares, a forte utilização do rádio e regras de comportamento menos duras, todos ingredientes indispensáveis do “evangelismo de massas”, foram práticas importadas pela Quadrangular, fundada nos Estados Unidos em 1923.

Para isso, algumas adaptações aconteceram: Saem os homens de terno e as mulheres de pelos nas pernas, entram pessoas que se vestem com roupas comuns e não se animam a seguir normas rígidas de conduta. A primeira inovação foi riscar do mapa o ascetismo, o sectarismo e a crença de que a melhor parte da vida está reservada para o Paraíso. A preocupação dos neopentecostais é com esta vida. 

Outra diferença é a radicalização da divisão do universo entre Deus e o Diabo. Para os neopentecostais, os homens não são responsáveis pelos atos de maldade que cometem: É o Diabo que os leva a pecar. Numa sessão de descarrego da Igreja Universal, o pastor explicou que, se o fiel enfrenta um problema há mais de três meses, é provável que esteja carregando um encosto. “Se a dificuldade completar um ano, daí não há dúvida: A culpa é do demônio”, disse para a congregação. Ele não se referia só a entraves financeiros ou comportamentais. A receita vale para tudo, inclusive para doenças incuráveis. Assim, expulsar o demônio do corpo é a receita única para todos os males, de casamento infeliz até câncer no pulmão. Mas a "formula mágica" da Universal não passa de ilusão e persuasão psicológica.   

O Evangelho Segundo os Profetas da Prosperidade. 
O crente dá ordens a Deus e determina o que pretende. No Brasil, além da Universal, a Renascer em Cristo, Sara Nossa Terra, Internacional da Graça e Mundial do poder de Deus adotam a teologia da prosperidade. A força de enxurrada com que o neopentecostalismo cresceu desorganizou todo o protestantismo. Mais e mais, boa parte do mundo protestante aceita a teologia da prosperidade.

China
Os Profetas da Prosperidade sabem que tem poder. Mas nunca houve tantas pessoas dispostas a ouvir e seguir suas orientações. As igrejas dão enfase na prosperidade do fiel, e que a vida abundante deve ser vivida aqui na Terra, e não no céu como antes era pregado. O crescimento do PIB na última década ajudou milhões de brasileiros a prosperar financeiramente e ter uma vida mais confortável. Logo fizeram associação entre seu progresso financeiro e a igreja. Se a carteira estava cheia de dinheiro, Deus estava prosperando. E se Deus estava com ele era graças a igreja e ao pastor. Nada mais esperto do que "confundir" o alho do crescimento econômico com o bugalho da teologia da prosperidade. Mas o benfeitor não era Deus, era a China. A segunda maior economia do mundo se tornou o comprador numero um de produtos agrícolas e minerais brasileiros. Isso fez chover "bençãos", ou melhor, dólar no Brasil ajudando a girar as engrenagens do resto da economia. Foi um dos maiores círculos virtuosos da historia da economia brasileira. Inflação sob controle, renda la em cima, desemprego la em baixo. Mas aí veio a crise, a China perdeu o folego, o governo federal pedalou na politica econômica, a inflação saiu da toca e o "demônio" do desemprego voltou a assombrar as almas. Nisso a teologia da prosperidade começou a enferrujar. Afinal de contas a formula mágica de dar dízimos e ofertas na igreja e receber 100 VEZES mais, não estava mais dando certo. E é justamente isso que fez as igrejas darem menos enfase no dinheiro e partir para o radicalismo. 

Com a crise econômica é difícil sustentar a teologia da prosperidade. A agenda moral vem a calhar.

A moral e o Conservadorismo
Uma das ordens nas igrejas é justamente não dar enfase na teologia da prosperidade em tempos de crise econômica, mas para não perder fieis levanta-se a bandeira da moralidade, compra-se uma guerra agressiva para mudar o foco. Os evangélicos invadiram o senado e tem em media 78 deputados. Existe uma frente parlamentar criadas em 2003. E sua organização tem uma agenda: A defesa da família tradicional. Temas como liberação da maconha, aborto e união civil de pessoas do mesmo sexo são ferozmente combatidos. Há juízes evangélicos que vem tentado bloquear algumas pautas que não passariam no congresso, mas tem aceitação no judiciário, que é o caso do casamento gay, e o uso moderado de drogas por exemplo. Mas nem todo evangélico concorda com essa agenda radical, muitos líderes são contra. Na verdade as igrejas competem entre si por fieis, e são concorrentes como numa empresa, e poucas coisas os unem. A agenda da defesa da família é algo que a maioria evangélica concorda. O grande problema dos fundamentalistas é simplesmente esquecer que o Brasil é laico, e não só evangélico ou qualquer religião que seja.

Promessas do céu
Mas por que cada vez mais pessoas abandonam suas religiões para tornarem-se evangélicas? As motivações para a conversão estariam nas soluções mágicas oferecidas. “Uma grande parcela da população não tem acesso ao serviço de saúde – e, quando tem, recebe atendimento precário e mal entende os médicos. É muito mais fácil, e faz mais sentido, acreditar que os problemas são causados pelo demônio e se tratar na igreja”. Não é apenas a questão médica que está em jogo. A dualidade entre Deus e o Diabo é uma das mais eficientes respostas para a eterna pergunta sobre como é possível existirem tantas coisas ruins. Um presidiário pode culpar a influência do demônio pelo passado violento – uma explicação para o sucesso da religião nas prisões. Com isso, os neopentecostais respondem satisfatoriamente às questões dos nossos tempos – coisa que outras religiões nem sempre conseguem fazer. As igrejas seduzem com um produto atraente e oferecem bom serviço. São religiosamente adeptas da mais pura e simples mentalidade empresarial.


Dar dinheiro a Deus, seja através da caridade ou de doações, é parte da doutrina de diversas religiões, incluindo todas do braço judaico-cristão. Com a teologia da prosperidade, no entanto, o dinheiro ganhou nova função. Agora é preciso dar para receber. A Reforma protestante começou justamente porque Lutero se levantou contra a venda das indulgências. Não dá para negar que muitos realmente ganharam dinheiro com a fé alheia – em especial os líderes das grandes igrejas. Em termos legais, não há diferença entre um templo evangélico e qualquer outro local de cultos religiosos. A Constituição garante a todos – evangélicos, católicos ou budistas – a mesma isenção de vários tributos, entre eles o IPTU e o Imposto de Renda.

Além disso, o crescimento da concorrência faz ser cada vez mais difícil sobreviver entre tantas denominações evangélicas. Calcula-se que uma congregação precise ter no mínimo 50 integrantes para recolher dízimos e doações em quantidade suficiente para cobrir as despesas mínimas, como aluguel e contas de luz e água. Nessas horas, ser a religião dos pobres não é vantagem. Cerca de 80% dos católicos brasileiros se dizem não-praticantes. É um enorme mercado para os evangélicos. Não é à toa que a maioria dos convertidos vem do catolicismo. Mas, na hora de afirmar a identidade e escolher um adversário, o pentecostalismo ataca o candomblé e a umbanda, escorregando para a intolerância religiosa. Em quase todos os templos é possível ouvir que essas religiões cultuam o Diabo. Também há casos de ataques a terreiros estimulados por pastores. Pode-se dizer que a briga contra as religiões afro-brasileiras, e não contra o catolicismo, o verdadeiro rival, seja uma estratégia de marketing. 

Mas, embora possam dar a impressão de que o fanatismo religioso esteja em alta no Brasil, muitos especialistas defendem a tese de que o crescimento evangélico seja um indício do contrário: De que cada vez mais gente rejeita a religião. É o que sugerem pesquisas mostrando concentrações de evangélicos nas mesmas regiões onde há altos índices de pessoas “sem religião” – caso do estado do Rio e da zona leste paulistana. Abandonar a religião oficial é o primeiro passo de saída do mundo religioso. Um indício de que a conversão ao mundo evangélico significa um arrefecimento do fervor religioso é o fato de que as neopentecostais exigem poucas mudanças nos fiéis. O resultado é que, quanto mais crescem, menos os evangélicos mudam a cara do país – bem ao contrário da revolução que ocorreu na Europa com as idéias de Lutero e Calvino. Prova disso é a programação da Rede Record, comprada pela Igreja Universal com o dinheiro do dízimo, que pouco difere das concorrentes.

Talvez o trunfo evangélico para conquistar almas seja sua capacidade de adaptação. Com a rejeição à centralização da interpretação bíblica herdada da Reforma protestante, qualquer um pode abrir um templo e pregar como quiser. Assim, enquanto seus “irmãos” se expandiam em áreas pobres, a Igreja Bola de Neve cresceu 1000% em três anos orando para os ricos. Seus dez templos, cuja marca registrada são as pranchas de surfe como púlpito e os hinos religiosos em ritmo de reggae, funcionam em áreas de classe média-alta de São Paulo e cidades de praia como Florianópolis, Itacaré e Guarujá. O público são jovens da classe A e B, com curso superior.

No Brasil Católicos somam 123,2 milhões de fieis. Evangélicos em geral são 42,2 milhões. Espíritas 3,8 milhões. Outras religiões 1,4 milhões. Sem religião 15,3 milhões.  

Fonte: Super Interessante | IBGE 2000/2010

Resumo
Sabe qual a diferença entre evangélicos, católicos e os outros? Nenhuma! Cada um prega o que quer.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A DECOMPOSIÇÃO DO CORPO DE CRISTO


Introdução: A morte de Jesus não significa nada para os cristãos. Mas sua ressurreição faz toda a diferença. Uma coisa bem óbvia pois sem esse acontecimento o evangelho ficaria sem sentido, e perderia seu significado maior. Estudiosos questionaram a historicidade da ressurreição de Jesus Cristo por séculos, e consideram a narrativa da ressurreição como relatos tardios e contraditórios. Diversos estudiosos modernos expressaram suas dúvidas sobre a historicidade dos relatos sobre a ressurreição e continuam debatendo suas origens. Enquanto que outros consideram os relatos bíblicos sobre o episódio decorrentes de derivadas experiências dos seguidores de Jesus e, particularmente, do apóstolo Paulo.

Páscoa Cristã x Páscoa Judaica
Páscoa significa passagem. Para os judeus, ela representa a travessia pelo mar vermelho, quando o povo liderado por Moisés passou da escravidão do Egito para a 'liberdade' na Terra Prometida. Para os cristãos, ela tem um sentido mais metafísico (transcende a natureza física). Representa a passagem de Cristo pela morte, seguido da ressurreição. Uma é a páscoa cristã, outra é a páscoa judaica, vamos entender sobre isso mais afrente. 

Contradições Gritantes 
Nenhuns dos pregadores do tempo de Jesus que pregavam o fim o mundo, pregavam sobre ressurreição, nenhum! Sem a crença na ressurreição Jesus teria sido varrido da memória da humanidade. O fato de se criar uma fé na ressurreição de Jesus, levou à crença de que ele fosse Deus. Fé religiosa e acontecimento histórico são duas coisas completamente diferentes. Para se crer na ressurreição como um fato é preciso fé, pois historicamente Jesus não ressuscitou. Não existe nenhuma prova concreta. Só existe o relato dos evangelhos, que cá pra nós, são bem duvidosos. Isso pra quem estuda a fundo o assunto, logo não é para papagaios religiosos que só sabem repetir versículos da bíblia. Os evangelhos são problemáticos pra quem realmente deseja saber o que aconteceu. Não há relatos históricos, o que se encontra são relatos de fé, invenções e achismos dos autores. Não é porque eu gostaria muito que Jesus tivesse ressuscitado que ele ressuscitou. O fato é que as narrativas somente foram escritas muito anos depois dos fatos terem acontecidos por pessoas que não estavam lá para comprovar se de fato as coisas realmente aconteceram do jeito que foram registradas. Os evangelhos discordam em quase tudo o que se diz respeito ao assunto ressurreição. João 20-21 | Mateus 28 | Marcos 16 | Lucas 24. Cada um contou ao seu modo. Será que foi o espírito santo que inspirou cada autor a narrar de forma diferente? Não existe inspiração divina onde não há concordância. Vamos a algumas questões: 

A. Quem foi a primeira pessoa a ir até o túmulo?
B. A pedra já havia sido removida? 
C. Quem foi visto lá?
D. Foram na hora contar aos discípulos o que tinham visto ou não?
E. O que a pessoa, ou as pessoas que estavam no túmulo mandaram as mulheres fazer? 
F. Onde Jesus foi visto? Na galileia, ou em Jerusalém? 

Mateus é claro quando diz que os discípulos devem ir para a GALILEIA, pois lá iriam se encontrar com Jesus. E assim eles fazem, vão para a galileia. Será? Lucas discorda de Mateus, e em sua narrativa os discípulos não são instruídos a ir para a Galileia, mas para ficarem em Jerusalém. Em Atos 1-2, confirma isso, pois eles não deveriam ir para a Galileia, pois em Jerusalém eles receberiam a descida do espirito santo. Sempre vai ter gente que não vai querer enxergar essas gritantes discrepâncias. Existem centenas de outras. Mas vamos nos atentar nos relatos do acontecimento da ressurreição. Todas essas questões levantadas acima, cada autor, Mateus, Marcos, Lucas e João narram de forma diferente. Cada um conta de um jeito. Nem a igreja, nem a teologia consegue explicar essa falta de concordância. Fica-se uma evidente invenção dos autores, e uma fraude religiosa. Estamos falando de autores que escreveram décadas depois dos acontecimentos, viveram em terras diferentes, falando em idiomas variados e se basearam em fabulas e mitos contados oralmente de boca em boca, como um telefone sem fio.

Os ensinos de Paulo
Paulo realmente acreditava e propagava a doutrina da ressurreição em carne e osso. Paulo pregava que Jesus havia ressuscitado fisicamente, e ainda afirmava que seus seguidores iriam experimentar da mesma experiência; I Cor 15. O que dá a entender é que Paulo acreditava numa ressurreição de corpo e espírito, um ligado ao outro. O mesmo Paulo declara que carne e sangue não podem entrar no reino dos céus; 15:50. Dá a entender que algo mudaria nesse “corpo ressurreto”. Em I Cor 15:3-8 Paulo começa dizendo: Pois transmiti a vocês entre as coisas mais importantes o que eu também recebi... Paulo recebeu de quem? Qual a fonte? Da tradição pré-paulina, teoria que já circulava antes de Paulo escrever suas cartas aos coríntios. Logo essa crença é realmente muito antiga, mas foi Paulo quem a popularizou. São simples poemas e declarações de fé, coisas que as pessoas acreditavam, mas que não são reais. 

No Terceiro Dia
Nenhuns dos evangelhos indicam que dia Jesus ressuscitou. Não indica que Jesus ressuscitou naquela manhã, antes das mulheres aparecerem. Os evangelhos simplesmente não dizem nada. Paulo diz que Jesus ressuscitou ao terceiro dia segundo as escrituras... Que escritura? O velho testamento? Os 6:2? Jon 2? Será que Paulo está citando mesmo essas passagens? Alguns estudiosos aceitam, eu particularmente não. A declaração de Paulo é pura interpretação teológica. Outro ponto que deve ser observado, é que Paulo não fala nada sobre Jose de Arimateia. Paulo simplesmente diz que “foi sepultado”. Porque não citou o nome da pessoa exata? Não citou porque não sabia nada do sepultamento de Jesus por Jose de Arimateia. E também sobre a forma que Jesus foi sepultado, em nenhuma de suas cartas conta detalhes, alias nada. O que pode indicar que uma pessoa específica que sepultou Jesus seja uma invenção posterior. Na lista de Paulo sobre o aparecimento de Jesus após a ressurreição, e ele sendo o último, parece ser uma lista bem limitada. O que mais intriga é que Paulo não menciona nenhuma mulher em nenhum de seus textos. Acontece que nos relatos de Mateus e João são mulheres que descobrem o túmulo vazio, e são mulheres que primeiro veem Jesus vivo.

Paulo menciona as aparições de Jesus sem mencionar o túmulo vazio. Marcos é o evangelho mais antigo e é narrado o túmulo vazio, sem mencionar qualquer aparição; Mc 16. Alguns estudiosos acreditam que as duas tradições do túmulo vazio, e as aparições de Jesus parecem ser obras independentes e reunidas posteriormente, e obviamente expandida, modificadas e inventadas num processo de contadas e recontadas ao longo dos anos.

A aparição da Virgem Maria
A crença da ressurreição de Jesus, tanto quanto em suas aparições posteriores depende de fé, e não de conhecimento histórico por se tratar de um evento “sobrenatural”. E é isso que muitos cristãos fervorosos e teólogos defendem. Acham que historiadores ou aqueles que buscam fatos históricos e provas concretas para o evento são céticos e preconceituosos com relação a eventos de cunho sobrenatural. Acontece que centenas de católicos afirmam com veemência que viram a virgem Maria, pois a mesma apareceu para eles, e deixou alguma mensagem. Mas evangélicos fundamentalistas ignoram, tem preconceito, e não aceitam o fato de que se pessoas viram Jesus vivo depois da morte, do mesmo modo pessoas também viram Maria viva depois da morte. Fácil acusar historiadores e céticos em relação à ressurreição, quando se nega eventos sobrenaturais de credos de outras religiões. O fato é que nenhum evento desse nível pode ser provado e nem estabelecido. Depende de uma coisa: Da fé do ouvinte. Isso significa que crença teológica não se baseia em evidencias históricas, mas em achismos.  

O Sepultamento
O fato de Deus ter erguido Jesus dos mortos, e o levado para o céu e uma série de outras questões é objeto de dúvida histórica. A ressurreição de Jesus esta ligada diretamente no fato de ele ter sido sepultado. Sem túmulo, não tem ressurreição, anjos, mulheres e toda a historia. Por isso devemos observar a questão do sepultamento. De acordo com o evangelho de Marcos Jesus foi sepultado por uma figura antes anônima e desconhecida, um respeitado membro do conselho, um aristocrata judeu; Mc 15:53. Depois disso foi ressuscitado por Deus e levado ao céu para viver eternamente. Não há uma evidencia histórica se quer, toda essa historia tem como base a fé. Existem evidencias para duvidar dessa tradição do sepultamento por Jose de Arimateia. O próprio Marcos diz em sua narrativa que todo o conselho do sinédrio buscava razão para matar Jesus. Não são alguns, mas todos. Logo uma das pessoas que pediu a morte de Jesus foi Jose de Arimateia. Pouco provável que Jose de Arimateia fosse se arriscar ou ter misericórdia de um homem que se rebelou contra o Estado, e que se nomeou filho de Deus. É realmente um problema histórico o sepultamento narrado por Marcos a luz de outras passagens do novo testamento.

Praticas Romanas
É importante entendermos como os romanos agiam naquela época, para desmascararmos algumas mentiras cintadas nos evangelhos. Pilatos por exemplo é retratado nos evangelhos praticamente como um homem bonzinho, incapaz de mandar matar alguém. João enfeitou a coisa, e afirmou que Pilatos declarou Jesus inocente por três vezes, e só depois ordenou a crucificação. Difícil de engolir, pois sabemos como os romanos eram cruéis e perversos, e matavam sem misericórdia. Será que do nada Pilatos ficou bonzinho? Pilatos não era um prefeito benevolente, pelo contrario. A teologia diz que Jesus foi retirado da cruz antes do por do sol na sexta, porque o dia seguinte era sábado, e era proibido na lei judia condenados pendurados na cruz. Mas não foram os judeus que crucificaram Jesus, e sim os romanos. Vale dizer que os romanos não ligavam nem um pouco para a tradição judaica. Se era sábado ou não para os romanos isso não significava nada. Será que os romanos estavam sensibilizados emocionalmente com a tradição judaica? Quem acha que sim, deve estudar um pouco sobre praticas romanas da antiguidade. 

A Putrefação do Corpo de Jesus
O costume romano era humilhar e expor ao máximo aquele que se atrevesse, a ser um agitador aos olhos de Roma. E Jesus foi visto exatamente como um rebelde, por isso foi crucificado. Uma das práticas mais cruéis de Roma contra rebeldes era matar e deixar o corpo em degradação exposto para todos os espectadores pudessem ver, sujeito aos animais necrófilos. Essa pode ser uma possibilidade do que pode ter acontecido com o corpo de Jesus. O fato é que não sabemos o que aconteceu com o corpo de Jesus. O que é verdade histórica é o fato do que acontecia com rebeldes crucificados deixados na cruz pelos romanos, e temos uma gama de fontes comprovando o fato. Por isso essa é uma evidencia muito próxima da realidade do que realmente aconteceu com Jesus. Pois segundo a tradição romana a crucificação seguida do corpo exporto na cruz, para ser comida de animais e aves caracterizava humilhação completa. E isso é a cara dos romanos.

A teologia argumenta que como haviam exceções a regra na lei romana, foi o caso de Jesus. Mas essa é uma mentira cristã, e fácil de ser refutada, pelo simples fato de que a “exceção” somente acontecia com pessoas de famílias da elite que conhecesse alguém do governo. O que não era o caso de Jesus. Jesus era da periferia, sua família não era influente, seus seguidores fugiram, e não havia nenhuma razão para alguém pedir seu corpo para ter um sepultamento digno. Nenhum dos seguidores de Jesus era influente. Jesus pode ter sido crucificado, deixado no madeiro, decompondo-se e servido de alimento as aves. Forte né? Pois é, mas essa é a evidencia mais próxima da realidade. O que podemos concluir é que os cristãos antigos inventaram o sepultamento, e um túmulo vazio. Por uma razão óbvia: Sem um sepultamento, o tumulo jamais poderia ser declarado vazio. Uma pratica grega e romana na época era lançar fora crucificados, sem um sepultamento digno, isso é, a pessoa teria o sepultamento negado. Por isso duvido que Jesus nas condições já mencionadas possa ter tido um sepultamento glamoroso como mencionado nos evangelhos. É obvio que os contadores de história inventaram um sepultamento digno, pois dificilmente uma possível ressurreição de um corpo deixado na cruz como alimento para animais ressuscitasse. A tradição do sepultamento digno é falsa. 

O Tumulo Vazio 
Se não houve sepultamento, logo não houve tumulo vazio. Mas vamos supor que existiu. Possivelmente algum religioso roubou o corpo de Jesus, e depois espalhou que ele tinha ressuscitado. Mas essa é uma possibilidade descartada. Essa foi a crença dos discípulos de Jesus, que ele havia ressuscitado, e assim começou o cristianismo. Eles de fato acreditavam que seu líder havia ressuscitado. Se ninguém tivesse pensado nisso, a história de Jesus teria sido esquecida, ou ficado entre os profetas judeus que não deram certo. Muitos acreditam numa ressurreição espiritual. A uma corrente que acredita que Jesus morreu normalmente, mas ressuscitou em espírito. Outros acreditam que Jesus ressuscitou em carne, mas que seu corpo é diferente, glorificado. É o que Lucas e Paulo acreditavam. Em Lucas 24 Jesus aparece na praia, come peixe na brasa e mel com os discípulos. Complicado um corpo glorificado comendo e bebendo como um mortal qualquer. Se Jesus comeu e bebeu, houve necessidade de ir ao banheiro antes de subir para o céu. Essa é mais uma tradição inventada.

Alguém viu Jesus por aí?
A crença na ressurreição foi uma realidade na época, sim os discípulos de Cristo acreditavam mesmo que ele havia ressuscitado, e o responsável por essa crença foi de quem começou a espalhar a história. E essa crença foi baseada principalmente em “visões”, isto é, pessoas que viram Jesus depois de morto. Mas como essas visões funcionam? Uma pessoa que afirma que viu alguém, ou a pessoa estava mesmo lá, ou foi imaginação, fruto de fatores psicológicos e neurofisiológicos: Uma alucinação. O que significa alucinação? Significa uma percepção sensorial onde existe um senso da realidade convincente de uma percepção de algo verdadeiro. E isso ocorre sem o estímulo externo do órgão sensorial vigente, que também pode acontecer com outros órgãos como: Tato, olfato, audição e paladar. Especialistas bíblicos afirmam que as visões de Jesus são verídicas, e que Jesus apareceu mesmo aos seus seguidores. O problema é que esses especialistas sãos cristãos. Devemos mostrar o outro lado da moeda, e buscar opiniões de especialistas bíblicos imparciais. As visões de Paulo e outros certamente foram motivados por fatores psicológicos. Jesus morreu, e se decompôs como qualquer mortal, e a fé cristã tem como base a ressurreição física de Jesus, isso significa que a fé cristã esta tão morta quanto Jesus. 

Sempre vai ter alguém com a teoria do sobrenatural, e que a ciência pode explicar. Acontece que se a ciência pode explicar o sobrenatural, logo deixa de ser sobrenatural, e se torna um fator natural. Por exemplo: Quando acontece um fenômeno da natureza, um terremoto ou uma avalanche onde centenas de pessoas morrem, logo aparecem religiosos dizendo que é a ira de deus sendo derramada, e que deus esta bravo por causa dos pecados. Essa é uma explicação religiosa. Mas a explicação mais coerente e aceitável, é que são fatores naturais, ou seja, eventos da natureza. Então se há guerra e terrorismo logo vão dizer que é o fim do mundo, e que o apocalipse começou. Gozado que Jesus não aparece pra ninguém no evangelho de Marcos, só aparece para Mateus, Lucas (Atos) e João. Poucos param para prestar atenção nesses detalhes. Em atos esta escrito que Jesus apareceu aos discípulos e esteve com eles 40 dias dando provas de sua ressurreição. Pergunta: Quantos dias foram necessários para convencer os discípulos que o mestre estava vivo?  Teve que comer peixe, tocar as chagas, comer mel etc. É estranho estar diante de uma pessoa viva, e ela ter de provar que ela esta mesmo ali, e que esta viva. Não precisa provar se ela esta mesmo ali. São histórias muito mal contadas. Pessoas que perdem seus entes queridos, e depois tem visões, sonhos com o falecido juram que foram visões reais. O mesmo acontece com pessoas que viram a virgem Maria. 

Vamos compreender melhor a questão. Estudos modernos feito por especialistas em alucinação mental, concluiu que pessoas “normais” que não tinham transtornos psicológicos, afirmam que tiveram pelos menos uma experiência alucinatória na vida. Relatos de familiares que já tinham morrido e centenas de conteúdo religioso ou sobrenatural. Houve casos de alucinações auditivas, pessoas que ouviram a voz de uma pessoa que já morreu, mas não a viu. A mente humana é capaz de produzir esse tipo de evento imaginário. É uma habilidade humana. Acontece que nem sempre funciona. Um fato decorrente é o ambiente e a cultura que pessoa esta inserida. Se numa determinada cultura aceita a existência de demônios, por exemplo, é obvio que isso aumenta a chance de alguém ver e falar com um demônio. Uma pessoa estressada, ou que sofreu um trauma psicológico muito forte esta mais propensa a sofrer de alucinações mentais. Geralmente a pessoa que experimentou a alucinação com o falecido tinha algum sentimento de culpa ou algo mal resolvido com o morto. Lembrando que os discípulos todos fugiram e abandonaram seu mestre na hora que ele mais precisava. Essa “comunicação com os mortos” acontecem geralmente em sonhos, e mesmo com a pessoa acordada. E quando a pessoa acorda, ela jura que foi real.

Técnica de Ressurreição Científica
Quando seu corpo está com temperatura de 10 graus, sem atividade cerebral, batimento cardíaco e sangue, é um consenso que você está morto", diz o professor Peter Rhee, da universidade do Arizona. "Mas ainda assim, nós conseguimos trazer você de volta." Rhee não está exagerando. Com Samuel Tisherman, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, ele comprovou que é possível manter o corpo em estado "suspenso" por horas. O procedimento já foi testado com animais e é o mais radical possível. Envolve retirar todo o sangue do corpo e esfriá-lo até 20 graus abaixo da sua temperatura normal. Quando o problema no corpo do paciente é resolvido, o sangue volta a ser bombeado, reaquecendo lentamente o sistema. Quando a temperatura do sangue chega a 30 graus, o coração volta a bater. Os animais submetidos a esse teste tiveram poucos efeitos colaterais ao despertar. "Eles ficam um pouco grogue por um tempo, mas no dia seguinte já estão bem", diz TishermanA técnica desenvolvida agora por Tisherman é baseada na ideia de que baixas temperaturas mantêm o corpo vivo por mais tempo, cerca de uma ou duas horas. O sangue é retirado e no seu lugar é colocada uma solução salina que ajuda a rebaixar a temperatura do corpo para algo como 10 a 15 graus Celsius. Em experiência com porcos, cerca de 90% deles se recuperaram quando o sangue foi bombeado de volta. Cada animal passou mais de uma hora no "limbo".

Testes com humanos
Tisherman causou um frisson internacional este ano quando anunciou que está pronto para fazer testes com humanos. As primeiras cobaias seriam vítimas de armas de fogo em Pittsburgh, na Pensilvânia. Nesse caso, são pacientes cujos corações já pararam de bater e que não teriam mais chances de sobreviver, pelas técnicas convencionais. O médico americano teme que, por conta de manchetes imprecisas na imprensa, tenha-se criado uma ideia equivocada da sua pesquisa. Com certeza absoluta na época de Jesus essa técnica ainda não tinha sido desenvolvida. 


Resumo
A doutrina da ressurreição é a resposta à vontade mais primitiva do ser humano, a da imortalidade. Não é porque eu gostaria muito que Jesus tivesse ressuscitado que ele ressuscitou. Cada um escolhe acreditar no que quiser, o que não se pode é discriminar quem não acredita em ladainhas religiosas. São muitas as evidencias que o Jesus da fé e todas as histórias que o envolvem são achismos e invenções. Mas se pra você é mais confortável acreditar em alguma coisa, nem que seja em algo que não é real, vai na fé.  

Fonte: Super Interessante | Trechos do livro Como Jesus se tornou Deus | Wikipédia | Bíblia: Versão João Ferreira de Almeida | Veja online | BBC Brasil

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

QUEM MANDA SÃO OS GENES

Introdução: Este texto foi pulicado originalmente por Alexandre Versignassi da Superinteressante, muito bem explanado da teoria de Charles Darwin. Vale demais gastar 10 minutos com essa leitura. Quem já leu, leia de novo pois detalhes importantes dessa teoria fantástica podem ter passado batido. Já nascemos programados, isso é um fato isolado.

Se você e uma barata fizerem as árvores genealógicas de vocês, vão chegar a um antepassado comum, um indivíduo que você e ela podem chamar de avô. Um indivíduo mais parecido com uma barata do que com os seus pais, mas ainda assim ancestral direto tanto seu quanto dela. Esse sujeito viveu há mais ou menos 500 milhões de anos. Indo um pouco mais para trás nessa árvore genealógica aparece nosso ancestral comum com as bactérias. Ou seja: do ponto de vista da “criação” não somos mais especiais do que os nossos parasitas. Foi o que Darwin concluiu. Ao destruir o mito de que o homem é o centro da criação, ele tornou a ideia da existência de Deus menos necessária. De quebra, desvendou boa parte do sentido da vida. E provavelmente do Universo. É o que você vai ver no texto. Mas antes vamos à história do Adão da vida real, o ancestral de todas as coisas vivas, e que brotou da lama.

Bom, antes de brotar da lama ele vivia em algum lugar. Esse Adão provavelmente era uma molécula de carbono que se formou antes de o Sol ter surgido, dentro da fornalha nuclear de alguma outra estrela. Essa outra estrela morreu em algum ponto da história do Universo. Quando uma estrela morre, ela geralmente explode, liberando no espaço os átomos que nasceram lá dentro. Inclusive os de carbono, que formam a base do seu corpo agora. Soltos no vácuo, alguns desses átomos de carbono se juntaram em cadeias, formando moléculas. E quando a Terra nasceu, no mesmo quiprocó espacial que deu origem ao Sol, há 4,5 bilhões de anos, algumas dessas moléculas vieram parar na nossa superfície.

Uma superfície conturbada. A infância da Terra foi traumática, infestada por vulcões e impactos contínuos de asteroides. Numa dessas explosões épicas, bateu aqui um astro do tamanho de Marte. A explosão foi tão violenta que o maior resquício dela continua bem aqui sobre as nossas cabeças: toneladas de rocha que um dia foram parte da superfície da Terra, aglomeradas numa bola flutuante que a gente chama de “Lua”. Outros impactos foram mais produtivos: caso das bilhões de pancadas com cometas. A melhor definição para um cometa talvez seja “asteroide de gelo”. E foi do gelo deles que veio toda a água da Terra.

Na infância do planeta, o gelo dos cometas foi criando um lamaçal (que depois viraria o mar). E nesse híbrido de sertão e mar algumas daquelas moléculas de carbono encontraram um porto seguro. O lodo era um ambiente propício para que elas se juntassem, formando cadeias cada vez mais longas e complexas. Uma hora, como quem não quer nada, apareceu um estranho nesse ninho molecular. Um acidente da natureza. Era uma molécula de carbono capaz de se replicar, de sugar matéria do ambiente e usar como matéria-prima para produzir cópias dela mesma. Motivo? Nenhum: ela fazia réplicas por fazer e pronto. Vai entender.

Essa aparição foi algo tão improvável quanto se esta tela comesse seus dedos agora e, a partir dos átomos da sua carne, pele e ossos, construísse uma cópia dela mesma. Improvável, mas foi exatamente o que aconteceu naquele dia.
E não havia nada ali para conter o apetite da molécula devoradora. Ainda mais porque arranjar matéria-prima, ou seja, “comida”, nesse caldo primitivo era fácil: bastava “pescar” nutrientes na água. Assim a molécula primordial cresceu e se multiplicou. Mas tinha um problema: nem sempre as réplicas saíam perfeitas. Às vezes acontecia um erro de cópia aqui, outro ali. Surgiam aberrações. “Um livro e tanto escreveria o capelão do Diabo sobre os trabalhos desastrados, esbanjadores, ineficientes e terrivelmente cruéis da natureza!”, escreveria Darwin sobre esse processo bilhões de anos depois.

Esses erros aconteciam bem de vez em quando: um a cada milhão de réplicas. Mas tempo é o que não falta nesse mundo. Então eles foram se acumulando mais e mais. Só que alguns não davam em aberrações. Muito pelo contrário. Algumas réplicas nasciam com uma mutação que as fazia se multiplicar mais em menos tempo. E não demorou para essas mutantes mais férteis dominarem o mar. Só isso já é um tipo de seleção natural. Mas a regra de Darwin só deu as caras para valer quando aconteceu o inevitável: o mundo ficou pequeno para tantos replicadores. Com a superpopulação, os ingredientes de que eles precisavam para fazer suas cópias rarearam. Era a primeira crise de fome no planeta.

A saída? Ir para a briga. Mas estamos falando de moléculas, que não têm lá muito poder de decisão. Foi aí que provavelmente surgiu uma mutação inédita, que permitia a algumas moléculas comer outros replicadores. Assim elas conseguiam eficiência total: arranjavam almoço e eliminavam rivais ao mesmo tempo. Mas o domínio não duraria para sempre. Com o tempo surgiram mutantes com capa protetora natural. Com essa armadura, dava para comer os rivais sem o risco de ser comido. Nasciam as primeiras células do mundo. “Os replicadores deixavam de meramente existir e começavam a fazer contêineres para eles, veículos para que pudessem continuar vivos. Os que sobreviveram foram os que construíram ‘máquinas de sobrevivência’ para si”, escreveu o mais notório dos neodarwinistas, Richard Dawkins.

Não demorou para virem células mutantes ainda mais terríveis contra as rivais. Elas tinham o poder de juntar forças com outras células e atacar unidas. E de fazer cópias de si mesmas numa tacada só, como se todas fossem uma única molécula. Surgiam os primeiros seres multicelulares. E eles ficaram cada vez mais complexos: suas células passaram a assumir funções distintas para operar sua máquina de sobrevivência. Faziam como soldados num tanque de guerra: umas ficavam a cargo da locomoção, na forma de nadadeiras; outras, dos “satélites” para encontrar comida (visão, olfato). E o progresso nunca parou. Tanto que hoje boa parte dos replicadores vive em “robôs” imensos, feitos de milhares de trilhões de células. Agora chamamos os replicadores de “genes”, e eles estão dentro de nós. Somos sua máquina de sobrevivência.

Genes mutantes e as pressões da seleção natural fizeram essa obra esplêndida que você vê no espelho todas as manhãs. Mas uma coisa não mudou desde os tempos da primeira molécula replicadora – aquele objetivo irracional: tudo o que os genes querem são fazer cópias de si mesmos. Foi para isso que eles criaram nosso corpo e nossa mente. E agora comandam a gente lá de dentro, por controle remoto, para que trabalhemos em nome da preservação deles. A razão da sua existência? Lutar para que os seus genes façam cópias deles mesmos do melhor jeito possível.

Esse egoísmo dos genes é uma das chaves para descobrir como a nossa mente funciona. O próprio Darwin tinha escrito, no final de A Origem das Espécies: “Agora a psicologia se assentará sobre um novo alicerce”. Demorou, mas aconteceu. Uma nova ciência da mente ganhou terreno no final do século 20. Foi a psicologia evolucionista, que usa Darwin e a mecânica dos genes para entender o que se passa aí dentro da sua cabeça. Premissa número 1 dessa ciência: a mente já nasce quase pronta. Ela não é uma folha em branco, em que qualquer coisa pode ser “escrita”, como muitos filósofos e cientistas sociais defendem. Do ponto de vista da psicologia evolucionista, não faz sentido dizer que a cultura molda o nosso comportamento. 

Ela afirma que sua mente foi forjada ao longo de toda a evolução. E que você vem ao mundo com todos os “softwares” instalados no “hardware” da sua cabeça. Seus desejos, sua personalidade e tudo o mais dependem desses programas mentais. Nossa margem de manobra é pequena. E tem outra: a mente humana ganhou os softwares que tem hoje nos últimos 200 000 anos, quando nossa espécie, o Homo sapiens, veio ao mundo. Passamos 97% desse tempo em bandos nômades, que viviam da caça e da coleta. Nossa mente, então, não passa de uma ferramenta da Idade da Pedra tentando se virar num mundo que não existe mais. Do ponto de vista dos nossos genes, ainda estamos no Paleolítico, uma época sem faculdade, carreira, dinheiro ou anticoncepcionais. Uma época em que só duas coisas realmente contavam: 

Sexo e violência.
Se ainda sobrou alguma coisa que você queria saber sobre sexo, mas não tinha coragem de perguntar, talvez a resposta dos evolucionistas sirva: ele é a forma que os genes arrumaram para melhorar as defesas da sua máquina de sobrevivência. Por exemplo: se você tem um sistema imunológico que não sabe se defender de algum vírus, e tudo o que você sabe fazer para se reproduzir são cópias de si mesmo, como aquelas primeiras células, seus rebentos vão ter esse problema. E o clã inteiro vai morrer no caso de um ataque. Agora, se você combina seus genes com o de um ser imune ao tal vírus, a história é outra: teoricamente, só uma parte do clã morreria. E o resto continuaria passando seus genes adiante como se nada tivesse acontecido.

Ao criar esse tipo inovador de reprodução, a seleção natural tratou de dividir o trabalho entre dois tipos de funcionários especializados. Um teria a função de tentar pôr seus genes em qualquer máquina de sobrevivência que cruzasse seu caminho. O outro selecionaria entre esses primeiros quais têm os melhores genes para compartilhar e cuidaria da cria que os dois tivessem juntos. Em outras palavras, o mundo se dividia entre machos e fêmeas (em algumas espécies, os papéis se invertem: os filhotes ficam a cargo dos machos, então eles é que são os mais paquerados).

Enfim, ao ganhar o poder de decidir quais machos terão filhos e quais ficarão na prateleira, as fêmeas assumiram o controle da evolução na maioria das espécies. E, para a psicologia evolutiva, é isso que determina aquilo que mais importa na vida: a propagação dos nossos genes, coisa também conhecida como vida afetiva e sexual. O sexo, hoje, tem pouca relação com o ato de fazer filhos. Você sabe. Nenhum adolescente pensa em engravidar 10 meninas quando vai viajar para o Carnaval. Mas os genes dele não fazem idéia de que existem camisinhas e tudo o mais, então deixam o rapaz com vontade de transar com 10 garotas e pronto. Se tudo der certo, esses genes poderão instalar-se no útero de um monte de meninas e construir um monte de bebês (várias máquinas de sobrevivência novinhas!).

Do ponto de vista das fêmeas a história é outra: transar com 10 sujeitos num feriado não vai “render” 10 filhos para os genes dela se instalarem. Vai dar é uma baita dor de cabeça. Os contraceptivos poderiam deixá-las livres para fazer sexo só pelo prazer com um monte de seres do sexo oposto, como qualquer homem faz (ou tenta fazer). Mas não. O cérebro delas evoluiu para selecionar os melhores parceiros, ter poucos (e bons) filhos, não para tentar a sorte com qualquer um. Sem falar que, do tempo dos nossos ancestrais caçadores-coletores até o século 20, sexo casual para elas era correr o risco de acabar com um bebê indesejado. Aí não tem ideologia liberal nem pílula que dê conta de superar esse “trauma” evolutivo.

Psicólogos da Universidade Stanford checaram isso com uma experiência simples. Contrataram homens e mulheres atraentes para abordar estudantes e dizer: “Você gostaria de ir para a cama comigo hoje?” Nenhuma mulher aceitou. Já as garotas tiveram resultados melhores: 75% dos homens toparam no ato. Dos 25% restantes, a maioria pediu desculpas, explicando que tinha marcado de sair com a namorada. Pois é: do ponto de vista da seleção natural, uma bela fêmea disponível é um bem valioso demais para ser desperdiçado. Nenhum homem se surpreende com isso (o pessoal da obra não está só brincando quando diz “ô, lá em casa!”), mas para as mulheres a verdade da psicologia evolucionista pode soar assustadora: “O desejo de variedade sexual nos homens é insaciável. Quanto maior for o número de mulheres com quem um homem tiver relações, mais filhos ele terá [pelo menos é o que os genes ´pensam´]. Então demais nunca é o bastante”, escreveu outro guru do neodarwinismo, o psicólogo Steven Pinker, da Universidade Harvard, nos EUA.

Esse apetite todo também ajuda a explicar as raízes de outro comportamento ancestral: a violência. Os despojos de guerra mais comuns nos conflitos tribais sempre foram as mulheres. Não é à toa que uma das lendas sobre a fundação de Roma, que aconteceu no século 8 a.C., celebra o dia em que os primeiros romanos atacaram uma tribo vizinha, a dos sabinos, e raptaram as mulheres deles para começar sua civilização. Não dá para dizer que não deu certo.
E esse é o ponto: às vezes a violência é, sim, o melhor jeito de conseguir alguma coisa. Então não há mistério para a psicologia evolucionista: como a violência funcionou ao longo da história, está impregnada nos nossos genes. “Os bebês só não matam uns aos outros porque não lhes damos acesso a facas e revólveres”, disse o pediatra e psicólogo Richard Tremblay, da Universidade de Montreal, em uma entrevista à revista americana Science. A grande questão, ele completa, não é como as crianças aprendem a agredir, mas como elas aprendem a não fazer isso.

Intrigante, mas o psicólogo evolucionista Eduardo Ottoni, da USP, tem a resposta na ponta da língua: “A coisa mais complicada na vida de um primata é a capacidade de se virar em sociedades complexas. E se dar bem socialmente não é dar bifa em todo mundo”. Então nada melhor que um pouco de altruísmo com alguns para ficar bonito na foto. Os morcegos que o digam: entre as espécies que se alimentam de sangue, a vida não é fácil. Nem sempre dá para voltar pra caverna com o almoço na barriga. Mas os que conseguiram sangue durante o dia dão uma força aos malsucedidos, oferecendo a eles o sangue que sobrou na boca. Mas não tem conversa: quem não retribuir a oferta quando a situação for inversa fica com a reputação manchada e é banido do almoço grátis. Mas em alguns casos somos altruístas sem querer nada em troca, nem inconscientemente. Isso acontece quando o assunto é a sua família. E é aí que fica mais clara a forma como os genes nos dominam.

Você é uma máquina de sobrevivência dos seus genes. Ok. Mas o que aconteceria se esses genes tivessem construído um cérebro capaz de detectar cópias deles em outro corpo? Aconteceria o seguinte: eles também lutariam pela sobrevivência desse corpo. Fariam você se sentir aliviado com bem-estar dele. O fato é que os genes construíram esse sistema de detecção. Todos os cérebros têm isso em algum grau. E o altruísmo puro é exatamente o que acontece quando dois animais são parentes próximos. Existe uma chance em duas de que qualquer um dos seus genes esteja no seu irmão ou no seu filho. E 1 em 8 de que esteja em um primo. Sendo assim, o que o neodarwinismo diz é: você não “ama” seus filhos e irmãos. São seus genes que vêem neles maneiras de se perpetuar. E é por isso que você os ajuda. O geneticista John Haldane, um dos pioneiros do neodarwinismo, quis deixar isso claro quando lhe perguntaram se ele daria a vida por um irmão. A resposta: “Não. Mas daria por 2 irmãos ou 8 primos”.

O mesmo vale para quando nos apaixonamos. Se você ama alguém, quer ter filhos com essa pessoa, quer colocar seus replicadores ali e se esfolar para cuidar dos rebentos. Aí, para o futuro dos genes, sua vida só faz sentido se aquela pessoa existir. E o sentimento é tão poderoso que parece eterno enquanto dura. Outra coisa que determina a hierarquia entre parentes é a expectativa de que eles se reproduzam. Daí os pais se sacrificarem mais pelos filhos do que os filhos pelos pais. Responda rápido: se você tivesse que decidir entre a morte de 20 estranhos e a vida do seu filho, ficaria com qual opção? Ou melhor: existe algum número de pessoas que valha a vida de um filho? Para a psicologia evolucionista, não. Pro seu Zé do boteco e pra dona Cleide da quitanda também não. O egoísmo dos genes aí dentro é maior do que tudo o que tem do lado de fora.

Falando em lado de fora, e o lado de fora? A evolução seria um fenômeno circunscrito à vida na Terra ou algo universal, como as leis da física? O físico Lee Smolin, do Perimeter Institute, no Canadá, fica com a opção 2. Smolin mandou as regras de Darwin para o espaço. Literalmente: criou uma teoria que aplica a seleção natural ao Universo inteiro. E foi além. Para ele (e outros físicos), nosso Universo é só mais um entre bilhões e bilhões. Todos juntos num Cosmos imensurável que podemos chamar de Multiverso. Nesse cenário, os universos são os indivíduos, os replicadores. Cada um lutando para fazer mais e mais cópias de si mesmo.

Bom, este Universo aqui começou quando toda matéria, tempo e espaço que conhecemos estavam espremidos em algo infinitamente pequeno. Esse pontinho explodiu no “dia” do Big Bang, há 13,7 bilhões de anos, e agora estamos aqui. A explosão que deu origem ao Universo, por sinal, aconteceu bem aí, no lugar onde você está agora. É um fato: no momento do Big Bang todos os lugares estavam no mesmo lugar, ocupando um espaço bem menor que o pingo deste “i”. O nosso Universo continua sendo só essa parte interna do Big Bang.
Mas tem uma coisa: existem alguns lugares no Universo em que tudo também está espremido em espaços menores que um pingo de “i” agora mesmo. São os buracos negros, que sugam tudo o que está à volta deles, inclusive o tempo e o espaço. Por isso, Smolin imagina que dentro de cada buraco negro há um Big Bang acontecendo. E os buracos seriam como “gametas” cósmicos: dariam à luz novos universos, parecidos com o “pai”. Smolin considera, então, que as “espécies” mais bem-sucedidas no Multiverso são justamente as que produzem mais buracos negros – a “prole” delas vai ser seguramente maior.

Lembre-se que buracos negros são estrelas mortas. E daí? Daí que, quanto maior for o número de estrelas, maior vai ser o de “gametas”. Mais: as nuvens de matéria onde as estrelas nascem, precisam ser bem frias (por motivos que só daria para explicar com uns 2 mil caracteres sobre física molecular – melhor pular). Bom, e sabe que tipo de coisa é o que há de melhor para esfriar essas nuvens cósmicas? Moléculas de carbono. Elas mesmas, as que deram o pontapé inicial na vida por aqui. Quanto mais delas houver por aí, mais “filhos” um Universo vai gerar.

Então nós, os descendentes dessas moléculas, podemos ser um mero subproduto da verdadeira seleção natural, a do Cosmos. Parece desolador, mas, se for isso mesmo, os habitantes deste planeta podem se orgulhar de saber que as leis de Darwin governam tudo isso. Ou até mais do que isso. Baruch Spinoza, um filósofo holandês do século 17, defendia que Deus e Universo são só dois nomes para uma coisa só; que o Criador não é exatamente um criador, mas a grande regra que move o Cosmos. Se você gosta desse ponto de vista (Einstein gostava) pode imaginar tranquilamente: Darwin não matou Deus. Só descobriu onde ele realmente está.

Resumo
Quando foi que você escolheu sentir ou não sentir desejo sexual? Quando foi que você escolheu os dons que você possui? Quem disse que escolhemos alguma coisa antes do nascimento? Podemos decidir a cor da camisa que vamos usar no dia, ou o que vamos comer no almoço, mas não podemos nos candidatar por exemplo a uma vaga de emprego cuja a função simplesmente não tem nada haver com o que sabemos fazer. Tem gente que já nasce com dom musical, outras simplesmente para serem faxineiras. É tipo assim, quando um gato cansa de ser gato e resolver ser cachorro, não vai dar muito certo. A teoria dos genes explica muita coisa...

Fonte: Darwin – O Homem que Matou Deus | Alexandre Versignassi Redator chefe da Superinteressante